sábado, 9 de junho de 2007

Um dia para ser lembrado...



Um dia para ser lembrado

Por Francisco Carlos Cavalcante



Tem coisas que só acontecem, com o seu amigo. Tem outras, que só com você. Mas desta vez, foi com John Hada Beligada Cavalcante Koritzky da Silva Dede Rodrigues de Oliveira Calhau Fukuyama Marin de Orlean e Bragança, importante descendente da família imperial Portuguesa no Brasil.
John, convidado a ser expositor em congresso internacional realizado em Pindamonhangaba, interior de São Paulo, sendo muito pragmático, já tinha todos os detalhes minuciosamente programado, sua agenda continha todos os detalhes. Mas imprevistos acontecem!
Indo a lavanderia pegar seu melhor terno, para sua infelicidade, o mesmo não é encontrado entre as milhares de peças da Sra. Giovanna, muito conhecida no bairro, por sua qualidade e responsabilidade, procura daqui, olha de lá e o terno que é bom, nada. Envergonhada Sra. Giovanna lhe dá mil reais para pagar o prejuízo com dez cheques pré-datado. Ele fica frustrado.
John acorda assustado e fica feliz, por perceber que a história do terno não passa de um pesadelo, na seqüência, ao olhar o relógio verifica que este não despertou conforme o programado, desesperado e atrasado, chama um táxi e vai se vestir, tudo com muita pressa. Nem bem passou quinze minutos, buzina em frente a sua porta, o táxi para levá-lo ao aeroporto e assim dar início a sua empreitada.
Mau entrou no táxi e foi logo dizendo: - Motorista, por favor tenho pressa, pois não posso perder o meu vôo.
O motorista por sua vez, querendo agradá-lo, solicita autorização para fazer um caminho alternativo, ganhar tempo.
John estava satisfeito com as ruas tranqüilas e vazias escolhidas pelo motorista, seu dia parecia que estava entrando nos eixos, no entanto o táxi nem bem rodou quinze minutos, uma grande fumaceira começou a sair do motor inviabilizando a corrida.
O que antes era bom, se tornava um problema. Em função do caminho escolhido e dos quilômetros percorridos, o local onde se encontravam não dispunha de táxi para continuar a viagem. John, pela primeira vez em sua vida, se vê obrigado a tomar um ônibus. Porém, percebendo que isso faria com que perdesse o avião, não tendo outro vôo para o mesmo dia, acatou a sugestão do motorista resolvendo tomar outra direção, se dirigiu a rodoviária Novo Rio, de onde saía coletivos para o mesmo destino.
Embarcado e feliz, pois teria condições de chegar na hora, relaxa e descansa por alguns minutos, até o próximo infortúnio.
As pessoas iam entrando com o bilhete na mão procurando seu assento, quando deu entrada uma numerosa família com umas oito crianças pelas mãos. A farra começou. Sentou-se ao seu lado, uma das mães, justamente aquela que estava com a bolsa das guloseimas. Foi uma festa! Era biscoito para cá, danoninho para lá, criança chorando aqui, outra enjoando ali e o ônibus seguindo, se reli e faceiro.
Percorrido duas horas de viagem, fizeram a primeira parada, John apressou em se limpar no toalete face a tantas migalhas e outras coisas que sobre ele caíram.
Tão esmerado estava em sua limpeza pessoal, que nem se dera conta de que seu ônibus já havia partido. Pasmo com o fato, mas sem perder a linha de nobre que era, procura informar-se de como proceder para seguir viagem.
Toma conhecimento de que mais uns três minutos de caminhada teria recursos para tomar um ônibus urbano e seguir até outra cidade que mantêm uma linha regular para seu destino.
Olhou bem a sua frente e só podia ver uma estrada de barro recentemente molhada pela chuva do dia anterior, imaginou como ficaria seus sapatos importadíssimos após aquela travessia, então, deu de ombros e logo iniciou os primeiros passos.
O ônibus existia sim, só que além de abarrotado de pessoas, ele carregava: duas cabras, um bode, seis caixas de galinhas e para completar o zôo, uns quatro vira-latas. Pior! Um passageiro olhando meu espanto disse: - Se desassossegue moço! Ocê vai para vaquejada, é?
John não teve forças para responder, baixou a cabeça, começou a rezar, pedindo a Deus que tudo aquilo acabasse logo. Pensou em desistir, mas se preocupou com o nome de sua família e de sua própria reputação, já que não era dado a tais desfrutes.
Chegando a rodoviária da tal cidade, foi comprar a nova passagem. Descobre que eles não aceitam cartão de crédito internacional, que ele não tem mais dinheiro, que o banco mais próximo fica a meia hora de distância e que o tal ônibus regular, é o último do dia e sairia a exatos dez minutos. Nunca passou por sua mente, que um dia pediria carona, foi então que percebeu que o atendente olhava muito para o seu relógio, que custa em média uns cinco mil reais, então ofereceu-o pela troca de uma passagem de quarenta pratas e assim obteve seu bilhete. Para ferir mais fundo seu orgulho, o atendente lhe perguntou: - Não é de camelô não né? Olha lá moço, sou do interior mais não sou bobo heim!
John, embarcou em frangalhos, seu ego estava igual as suas roupas, maltratado. Para pôr a pá de cal, senta a seu lado, uma distinta senhora de uns oitenta e cinco anos de idade que percorreu toda a viagem, com flatulência, eructação e falando sem parar, tudo ao mesmo tempo.
Enfim Pindamonhangaba, na rodoviária toma um táxi, face ao estado deplorável e fétido que aquele homem de boas maneiras se encontrava, o motorista ressabiado não teve coragem de puxar conversa.
Bom, esta história ridícula chega ao fim, John, consegue chegar ao seu compromisso, mas preocupado com o seu retorno, ele tenta combinar com o motorista para pegá-lo ao final do congresso, por volta das dezenove horas, o que é recusado veementemente.
Indignado John, exige saber o porquê.
O que é prontamente esclarecido: - Pô Doutor, hoje não dá, tenho que ficar com a minha família, afinal de contas hoje é domingo né! John sente sua espinha gelar.
Ele chegou, um dia antes do combinado, tão preocupado que estava e abalado pelo sonho, não se deu conta que o relógio não despertou porque não tinha sido programado, já que hoje é domingo e sua palestra só acontecerá amanhã, segunda-feira. Portanto um dia para ser lembrado deve ser confiado a instrumentos mais sofisticados, e não no seu despertador. A pressa sempre foi inimiga da perfeição, mas claro, isso nunca aconteceu com você, não é mesmo?

Um comentário:

Unknown disse...

Realmente pode acontecer.
A falta de planejamento, a pressa e a distração acarretam confusão na vida.
Muito criativo.