sábado, 9 de junho de 2007

Uma volta sinistra



Uma volta sinistra...

Por Francisco Carlos Cavalcante



Aquela seria mais uma das muitas vezes em que aqueles jovens se reuniam nas noites frias de julho para aproveitar a época, acender uma fogueira e comer batatas-doce, todas roubadas das cestas de legumes de suas próprias casas, se não fosse pelo singular episódio vivido por Dudu o adolescente mais velho daquele grupo de amigos.
O papo corria solto e sem nenhum compromisso quando Dudu começou, tentando pôr medo na turma:
- Hoje o programa do Jorge Andrade, da Rádio Tupi que conta histórias reais de fantasmas, foi de arrepiar?
Dizia enquanto mantinha sinistro sorriso no canto da boca.
- Ih! já vem este Dudu de novo com este papo torto de fantasmas – falou Zé Luiz, um dos mais novos do grupo – Conversa boba essa hein! – se dirigindo a Marco Antônio. Porém, este nem teve tempo de responder e Dudu voltou a carga.
- Tá falando isso porquê, você tem medo? Mulherzinha!, mulherzinha!, mulherzinha!
- Não é nada disso não tá, é que minha mãe falou que falar dessas coisas atrai o “coisa ruim”.
- Besteira! Retrucou Dudu e começou a contar a primeira das muitas histórias por ele conhecida, na seqüência e sem perder o fôlego entra Zé Guilherme que conta com mais detalhes e com mais pavor sua história.
Aquele grupo permaneceu por algumas horas com aquela farra, onde cada qual tentava provar para os demais, que não tinha medo e conhecia algo ainda mais assustador. Quando a hora já ia avançada, uma das mães chamando seu filho para entrar, consegue desfazer aquela pequena roda de amigos infanto-juvenis.
Dudu, porém de olho nas batatas restantes, vai se despedindo de um e de outro até ficar por último, sua atenção era tanta nas batatas que nem percebeu que estava sozinho, não havia mais nenhuma alma viva na rua.
Todos já haviam se recolhido o deixando só, intrigado, olha no relógio de pulso ganho do pai e verifica que faltam exatos sete minutos para a meia-noite, instantaneamente recordou-se da história de Zé Guilherme, aquela da sétima filha mulher de dona Mariana que virou mula-sem-cabeça.
Correndo-lhe leve arrepio na espinha, levantou-se em um só movimento e resolveu deixar as batatas para depois e ir logo para casa.
Nem bem dera dois passos em direção a portaria do seu prédio quando percebeu no final da rua, um vulto fantasmagórico. As sombras das árvores ao seu redor insuflavam pavor. O vento, antes suave e gostoso, agora zunia num sussurrar muito estranho.
O medo estava instalado em seu coração, suas mãos antes aquecidas pelo fogo, agora gelavam, cada passo acompanhavam a batida forte do coração, lhe deixando mais perto daquele ser. Todo o seu corpo, por sinais inequívocos parecia lhe pedir para evitar, fugir, correr. Porém não havia outro caminho a tomar.
Suando frio debaixo de seu casaco, podia ver que aquele ser estranho vestia grosso capot que lhe cobria todo o corpo, não podia ver seu rosto face a escuridão do momento, mas um detalhe lhe chamava a atenção, o reflexo bem na ponta do pés.
O vento sussurrava: Dudu corre. Sai daí, é o demo, Dudu!
Aquele corajoso adolescente na frente dos amigos, agora tremia de ponta a cabeça, as sobras da noite pareciam bailar num verdadeiro processo de hipinose sinistra. Dudu andava passo a passo, agora bem no meio da rua, entre as calçadas. Os olhos, saltando da órbita. Para seu desespero, aquele ser parecia antecipar seus movimentos o imitando.
Há menos de trinta metros de distância da sua portaria e tendo aquele ser, bem a sua frente, ainda sem conseguir desvendar o rosto daquele que segue em direção contrária, Dudu ouve uma voz, que jamais esquecerá:
- Vim te buscar, você me chamou, estou aqui, Dudu!
- Aos prantos, ele olha para aquele reflexo na ponta dos pés daquela criatura e percebe que seja lá o que aquilo fosse, não era humano, no lugar de pés, ele possuía patas, idênticas as dos cavalos, só que viradas para trás. Soltando o berro mais alto que seus pulmões poderiam lhe dar, Dudu põem-se a correr feito um louco, alucinado, gritando.
- Paieeeeeeeeeeeeeeeeeeeee!
Seu medo era tanto, que ele não controlava mais as suas ações. Passando pelo umbral da portaria, Dudu tropeça, ou melhor, atropela um homem, alto, forte, de cabelos da cor do mel, que o segura com vigor e diz:
- Que isso garoto, quer acordar a todos com esta gritaria?
- Dudu, sem coordenar bem a fala, chorando, soluçando, agitado, balbucia algumas palavras para explicar o que tinha visto ali fora.
O homem faz menção de sair para esclarecer o fato, mas Dudu o agarra com força.
- Não! Moço, vai não, por favor, me leva para casa, por favor!
- Aquele homem singular se abaixa, fixa seus olhos nos de Dudu, e diz:
- Então vamos juntos, você deve ter visto coisas, não tem nada lá fora, eu garanto.
Teria sido mais fácil levar Dudu a forca do que convencê-lo a sair novamente.
Percebendo que não existia diálogo, aquele homem segura Dudu pelo braço e começa a arrastá-lo para fora. Dudu em vão tenta se desvencilhar.
Chegando na rua, ambos olham de um lado para o outro e como esperado não acharam nada nem ninguém.
Dudu, tentava controlar seu coração descompassado ao mesmo tempo que se livrava das mãos fortes daquele homem.
- Viu, eu lhe disse, não tem nada aqui! Dizia o homem.
Não querendo testemunhar mais nada, toma a direção da portaria uma segunda vez, doido para chegar no único lugar seguro daquele noite, sua casa.
Deu bem uns cinco passos e lembrando-se da boa educação recebida no lar, virou-se para agradecer, mas como um passe de mágica, aquele que o ajudara fazia um minuto, desaparecia lentamente bem na frente dos seus olhos.
E Dudu pela segunda vez naquela noite, grita de pavor:
- Paieeeeeeeeeeeeeeeeeeeee! Enquanto corria para casa.
Na noite seguinte quanto todos os amigos se reuniram novamente, Dudu eufórico em vão conta sua história.
- Ah, para com isso Dudu! Essa história de anjo e demônio é velha demais, conta outra, vai.
- Eu juro! - repetia Dudu em vão enquanto todos riam dele.
Naquela noite, Dudu, foi o primeiro a se recolher e nem quis saber das batatas.

Um comentário:

Unknown disse...

Arrepiante, fascinante e rica em detalhes.