sábado, 9 de junho de 2007

Meu primeiro vestidinho...



Meu primeiro vestidinho...

Por Francisco Carlos Cavalcante



É de conhecimento de todos que todo Governador sempre faz um bom trabalho, não faz uma semana quando nosso querido Sergio Cabral deu uma entrevista onde declarava de público a situação confortável dos hospitais do estado do Rio de Janeiro, estes fazem cerca de hum milhão e duzentas mil cirurgias/mês, que o investimento mensal passa dos cinqüenta milhões de reais e que são raros os casos de insucesso, graças a altíssima competência da equipe médica e não dos equipamentos e demais acessórios e utensílios.
Pois é, mas como tudo tem a sua primeira vez, e sempre existe uma exceção à regra, quero dividir com o amigo leitor, uma cômico-trágica experiência. Não faz quinze dias, tive que me submeter a uma cirurgia séria, para um implante de uma prótese abdominal provocado por uma hérnia transversal, nome pomposo não é? Uma rede feita de algas marinhas que agora sei o quanto incomoda.
Com o coração aos saltos, na hora aprazada, cheguei as sete em ponto, no HGB, sigla do Hospital Geral de Bonsucesso –desempregado é assim mesmo, quem pode manda, quem não pode pede socorro – num corredor confuso, sujo e sem nenhum tipo de sinalização, olho pro lado vejo distinta senhora e pergunto
– A senhora também irá fazer cirurgia?
Ela leva a mão aos ouvidos e diz
– Heim? ... o que meu filho?...
Faço um gesto enfadonho e viro para o outro lado, onde estava postado um jovem que pelo tamanho do braço deveria praticar halterofilismo há anos.
– Meu jovem, você vai fazer alguma cirurgia também?
Confesso que foi difícil compreender as poucas palavras balbuciadas.
– Já é!, Firmou mano! Geral aqui vai fazer! É nós, formou meu!
Sorri meio acabrunhado, olhei ao longe para disfarçar e dei dois passos a frente, na verdade queria fugir daquele lugar, mas a necessidade da cirurgia era grande.
Passado uns quarenta minutos, entra triunfante uma equipe de jovens médicos, vindo da escada, que mau educadamente passam sem cumprimentar ninguém, chegando ao lugar que mais tarde denominaria de ninho das cobras, pois seria o posto de enfermagem, pegaram lá alguns papéis, retornam ao hall e iniciaram uma chamada nominal solene, sou o quinto a ter o nome citado. Quem era chamado, recebia sua ficha e era atendido por uma enfermeira simpática feito um rinoceronte em crise existencial.
– Senta aí!
– É a primeira vez que faz cirurgia?
– Tem alguma alergia?
– Toma algum medicamento?
– Estica o braço! Vamos “tirar” sua pressão.
Pasmem, ela não me olhou nenhum segundo, duvido que ela saiba dizer se era alto ou baixo, gordo ou magro, preto ou branco, e aí vem a pior parte, ela esticou o braço para a direita, pegou um avental que não cabia nem na metade de mim e disse, agora sim, me olhando nos olhos e com um sorriso maroto no canto da boca.
– Seu leito é o 501/3, pode ir para lá, tire suas roupas inclusive a sua cueca, vista o roupão com a parte aberta para trás e aguarde a chamada do enfermeiro.
Me dirigi ao leito e iniciei as minhas preces. Ao olhar novamente aquele pedaço mínimo de pano, pensei de mim para comigo, ela deve estar brincando!
Já despido, e com aquele pano tentando cobrir o que fosse possível, me deitei no leito que ainda estava quente porque o outro paciente acabava de sair, só deu tempo de outro enfermeiro trocar os lençóis, deitei e olhei para o teto. Não tinha coragem de olhar para os lados, que vergonha! aquele pano mulambo sobre o corpo, enfiado por baixo das pernas na tentativa de esconder as partes, ridículo...
Olhei para mim naquela condição e soltei uma gargalhada foi algo tão espontâneo e paradoxal que todos os outros cinco pacientes ficaram me olhando. Me vi ali, feito uma mocinha ( vestidinho justo, pernia grossa, papai não gosta! ), esperando seu primeiro namorado, ridículo para um homem de quarenta anos e cem quilos.
Infelizmente é assim que a grande maioria do povo brasileiro vive, literalmente jogado e esquecido pelas autoridades. Os médicos agem como se tivessem asco daquele que atende, na sua grande maioria filhos de classe média alta, moradores de condomínios de luxo, sentem certo dissabor ao ter que ter como pacientes um povo tão desqualificado, desnutrido e pueril, mas que sem estes não se encontram capacitados a atender seus pares.
Enquanto isso, os governantes vão dando entrevistas expondo números e mais números que não os contesto, mas que não espelham a realidade interna dos muros dos hospitais já que graças a Deus é uma pequena parcela da população pobre que faz uso destes serviços. Quanto a cirurgia? As dezoito horas, fui visitado pelo médico que me notificava que a mesma foi adiada por falta de anestesista, eu tinha ficado vinte quatro horas sem comer nem beber nada, me expondo ao ridículo e voltei para casa com apenas um tapinha nas costas. Dois dias depois consegui fazer a danada, não levou nem três horas. Agora estou fazendo uma dieta para que, numa eventualidade, o vestido não fique tão justo assim. E afinal de contas, o primeiro vestido a gente nunca esquece!

5 comentários:

Unknown disse...

Acredito que foi real e ao mesmo tempo engraçado,um homem de vestidinho.

Maria de Deus Oliveira disse...

Oi amigo Francisco
Já falei que gostei do final desse texto com esse vestidinho. Como também já falei, vc chegou sem nenhuma pretensão e conseguiu ser a Revelação.
Coloquei seu blog nos meus favoritos porque sei que vou ler muitas coisas interessantes.
Grande abraço e sucesso para "vocês", rsrs,
Dede

Anônimo disse...

Olha Francisco, vc é demais!!!!
Adorei seu primeiro vestidinho :P
Bjs.......

Edison F. Pereira disse...

Hahaha. A história é muito boa, apesar de mostrar a triste realidade com que muitas pessoas são obrigadas a passar para receber algum atendimento médico.

Andreia disse...

Bom dia... amigo Francisco!!!
Acredito que foi real e vc não viu nada... fui internada três vezes pra operar e fui as três vezes dispensada por falta de patologista.. dá pra acreditar?!rsrs.. mas, foi ótimo, acabou com medo, insegurança, ansiedade e reduziu toda a adrenalina..rsrsr
Andreia
Casa do Caminho